domingo, 29 de dezembro de 2013

O varredor de tristezas



Fazia-se uma noite iluminada, o brilho do luar estendia-se sobre a rua cinzenta ofuscante aos escombros que ali habitavam. E bem ali, havia uma menina que despejava um mar de angústias e lágrimas, sentada na escada de um restaurante com nome estranho, velho e abandonado.
Ela havia formado um castelo de águas cristalinas. A pequena sentia-se descontente. Uma imagem entristecida ao quíntuplo. Cabelos rubros, descuidados. Roupas rasgadas e esquecidas, pelo tempo. Mas ela não aparentava morar na rua, talvez tenha se perdido e ficou por ali.
Do outro lado da rua uma silhueta envelhecida caminhava, de lá para cá. Parecia impaciente. Os pombos comiam as migalhas que haviam no chão.
Uma voz soou na escuridão. Uma voz velha.
- Que faz ai sozinha menina?
A menina olhou, com olhos vermelhos e todo borrado da maquiagem que usava, toda preta. Usava uma luva preta aparecendo todos os dedos. Assustada com o desconhecido grisalho.
- Soube que há um mar de tristeza e vim fazer meu trabalho.
- Que trabalho senhor?
- Sou varredor de tristezas.
- Como faria algo que não é possível?
- É só você desejar. Daí, meu trabalho fica mais fácil. 
Ela ficou mais um momento em silêncio.
- Ficarei aqui, até concluir meu trabalho menina. - Disse ele firme.
Ela não sabia o que pensar, achou que o senhor estava mentindo e tentando tirar ela dali, ou até pensou que ela era uma ninguém, mendiga, que não tinha onde morar, ou qualquer outra coisa.
Então ela quebrou o silêncio.
- Eu não tenho mais nada a fazer aqui, sou só escombros. Já olhou minhas vestes? Olhe a desordem que eu sou! Não sei para ir e tampouco para onde vou. É como se o vento que passou há instantes tivesse sugado minha memória, a fim de me fazer recomeçar. Mas como? Não sei, só sei chorar. Estou tão escura quanto à noite que tampa meu coração e já não o vejo.
Ela parou, e fixou o olhar na caçamba de lixo que estava a sua frente.
- Sou igual a esta caçamba, o que carrego em mim é somente lixo, que os outros insistem em depositar em mim e eu bem tola deixei isso se acumular. Nem me perguntam se eu quero, fazem quando querem. Misturam tudo, estou quase intoxicada. Estou essa imundice porque não tenho mais forças para gritar.
O varredor de tristezas fechou os olhos. Ela notou. Então baixou a cabeça e começou a chorar, achou que aquele senhor nem tinha dado atenção para suas palavras machucadas e angustiadas. Muitas lágrimas correram de sua face e a menina ficou horas fazendo aquilo sem parar. Lembrando-se de tudo e todos e por fim, que estava ali porque queria estar, longe do mundo que ela não queria fazer parte.
Silêncio. O choro cessou.
- Como se sente agora? – Ele perguntou
- Me sinto melhor, não sei o por quê.
- Que bom.
- Bom?
- Sim, meu trabalho aqui já findou.Já está tudo limpo. Boa noite jovem. 

O varredor de tristezas havia feito um bom trabalho. A garota levantou-se, sentindo-se mais leve e seguiu seu rumo, junto de pensamentos lavados e limpinhos, prontos para uma próxima.

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