quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cartas I


1º carta
    Desde o começo da minha insistência em escrever-lhe passei a admirar primeiro a paisagem a minha frente para que eu tivesse o que lhe falar e então, as ideias surgiriam e eu poderia lhe escrever algo poetizado talvez, e bonito. Agora eu olho o pássaro que canta perto de mim, embora esteja lá fora. Lembrei que você gosta deles. Eu olho pela janela e eles estão todos felizes. Se você estivesse aqui iria se maravilhar com a canção, tal qual é a mesma beleza dos teus sorrisos.
     As ideias se fundiram e agora tento transparecer o que eu sinto, mesmo confinado nesse recinto. Posso afirmar que não sou um louco, não mesmo. Escrevo em completa sanidade do que sou. Só não sei o porquê de tudo isso.
    Embora jovem, às vezes sinto minha voz envelhecida, por isso parei de falar e optei por escrever. Não gosto mais da minha voz. Não meus ouvidos.
Não tenho para onde correr, então, escrevo. As coisas que eu escrevo são justamente para esquecer que eu estou preso aqui e não posso sair, de jeito nenhum. As pessoas vêm me visitar mais logo se vão e, eu fico solitário de novo e tudo volta a ser como era antes. A única coisa que me faz ter esperança é pensar em você.
    Já senti vontade de ser uma mosca e voar por aí, para saber o que as pessoas estão fazendo e o que elas pensam. Ouvir o que nunca ouvi e ver o que nunca vi e nem conheci. Queria ver além dos problemas da vida e perceber o valor que ela tem.
Hoje eu sei, e lhe digo sinceramente, que eu tenho algumas respostas, a de saber o que é o sofrimento, o que é não ter liberdade como antes, e o tempo que eu divido com silêncio é o que me faz conversar mentalmente comigo, com os meus eus.
    Será que os meus amigos ainda se lembram de mim? Ou será que falam de mim pelas minhas costas? Há coisas que não são mostradas, mas que fazem a gente pensar e pensar. Imagino tanto coisa enquanto escrevo essas palavras para você ler, só queria que alguém me entendesse através do que eu digo e não do que eu faço, ou melhor, fiz.
    Apostei em coisas pelas quais eu perdi por besteira. Perdi coisas e pessoas sem perceber surpreendido por quem pensei em conhecer. A vida me deu muitas rasteiras. Cheguei à conclusão de que o amor não existe materialmente. Quando mentiram para mim, não fiquei zangado, mas triste e talvez decepcionado com o tamanho do mal. Nunca pedi nada em troca, a não serem as palavras proferidas das pessoas que eu gostaria de escutar com pura sinceridade em sua voz. Por mais que doa e difícil que seja, eu prefiro a verdade.
  Não sinto mais medo de nada. Tudo aquilo que tenho está dentro do meu coração, que muitas vezes foi covarde em não despejar o que sentia de verdade e sofria feito um bebê que sofre sem a mãe. Nunca prometi nada a ninguém, pois nunca pensei no amanhã, somente no hoje. E nem mesmo planos, pois tudo ia acontecendo e eu seguia a vida.
     Agora eu vivo a pura realidade e vivo um pouco na fantasia. Escrevo tudo o que penso e hoje me deu vontade de compartilhar o que penso com alguém. Um dia você saberá por que escolhi você. Tem coisas que não há explicação, não é preciso falar. Há um nível profundo que uma mente consciência alcança.
    Nunca escrevi uma carta na minha vida para ninguém. Mas, desde o dia que eu fiquei sozinho, aprisionado neste local de quatro paredes, comecei a escrever coisas sem sentido e depois algumas histórias. Baseava-me nas aventuras que vivi e nas pessoas que eu já conhecia. Agora já tenho uma gaveta cheia de histórias que ninguém nunca viu, somente eu. E você é a única pessoa que lê algo que eu escrevo. Espero que queira ler mais. Seria um tipo de consolo intangível, mais sentido.
   Para finalizar, agradeço a sua atenção por ter lido a minha carta. Talvez tenha sido uma besteira, mas, no fundo eu sempre achei que você fosse a pessoa certa por ser a única a me compreender sem me questionar.


E.C.V


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